O avô do DaVinci Resolve

Achei nos backups o meu antigo rolo de color grading. É tão velho que aspecto ainda é quadrado, 4:3. Esse rolo ficou abandonado, sozinho, nos últimos 10 anos na minha renegada conta no Vimeo. Foi montado pelo pessoal da Link Digital, no tempo em que trabalhei lá, pra divulgar meu trabalho de cor no então muitíssimo requisitado telecine da casa. #nostalgic

Todos os filmes nessa seleção foram rodados em película 35mm ou 16mm. Nessa época, câmeras digitais estavam começando a surgir, e câmeras de vídeo eram apenas para novelas, programas de auditório, telejornalismo e documentários de baixo orçamento. Portanto, cinema e publicidade eram filmados sempre em película. E como as moviolas já eram coisa do passado, pra se poder iniciar a pós-produção se telecinava o negativo - termo que ganhou status de verbo e significa "escanear" a película. Só que transferindo as imagens pra vídeo, ao invés de para um arquivo de computador como se faz hoje. 

Como curiosidade técnica, os filmes neste reel foram telecinados num telecine Cintel Ursa Diamond e coloridos em um DaVinci Renaissance 888 (caso dos filmes que fiz ainda nos Estúdios Mega), ou já no telecine Philips Shadow, da Link Digital, e coloridos no "estado da arte" de outrora - isso antes da BlackMagic Design comprar a DaVinci: o então fabuloso DaVinci 2k Plus da Link. Tudo isso, é claro, em gloriosas 525 linhas de resolução SD NTSC e aspect ratio 4:3.

O atual DaVinci Resolve, que hoje baseia o processamento de vídeo em GPUs externas (as placas de vídeo nVidia e ATI) e é conhecido apenas como um software, é descendente direto dos DaVinci Renaissance e do DaVinci 2k / 2k Plus.

Os antigos DaVinci não rodavam em Linux, PC nem Mac, como hoje: rodavam em uma (literalmente) caixa preta que parecia um frigobar misterioso. Custavam centenas de milhares de dólares, e eram basicamente um hardware proprietário muito caro e avançado pra época.

Pra quem nunca viu ou ouviu falar de Telecines, (provável, se você entrou no audiovisual há menos de 10 anos), estes são (eram ?) máquinas caríssimas, e também o principal elo de uma etapa da pós-produção hoje obsoleta. Uma espécie de mamute da pós produção. Grandes, pesados... e (praticamente) extintos. Telecines são uma espécie de scanner de negativo em tempo real, nos quais se carregava as "pizzas" de filme ("pizza" é o rolo de negativo montado no laboratório, como famoso e recém extinto LaboCine. Cada uma tinha 3 rolos de negativo de câmera, 35mm ou 16mm, emendados como um rolo só).

Uma vez carregada a "pizza" no telecine se podia, magicamente, controlar o rolo de negativo de câmera vendo tudo num monitor de vídeo broadcast como se fosse um videocassete VHS gigante com jog wheel.

Um telecine Phiips Shadow, como o da Link Digital

Um telecine Phiips Shadow, como o da Link Digital

Telecines custavam (e geravam) milhões de dólares antes das câmeras de cinema digitais surgirem, e dominaram o mercado da pós-produção por cerca de 20 anos, entre 1990 e 2010.

Pensando melhor, vou fazer outro post - ou quem sabe uma série? - sobre os telecines, antigos DaVincis e outras ferramentas de cor anteriores ao Resolve - até porque esse post aqui é sobre o meu velho rolo. Pois bem: esquecido no meu Vimeo sem uso, resolvi fazer dele uma mea culpa: sim, eu sei que é um material de divulgação ridiculamente datado pra quem está ativo no mercado. A verdade é que sempre faltou o tal do tempo pra editar um novo reel... e, convenhamos, com o excesso de trabalho (que nunca faltou, com ou sem rolo), faltava também o incentivo. 

Bom, reconhecer já é um recomeço. Dinamizar esse blog e o site e geral, além de montar o novo reel: projetos em andamento para 2017. Até o fim do ano dá. Acho.